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Seul entre dois tempos: hanoks tradicionais e arranha-céus de Gangnam

Seul mostra em poucos quarteirões um contraste que outras capitais asiáticas levam décadas para expor: telhados curvos de hanoks convivendo com torres de vidro de Gangnam, becos de chá centenários a uma estação de metrô dos estúdios que produzem K-pop para o mundo. Não é preciso escolher entre a Seul antiga e a nova — dá para atravessar as duas em um mesmo dia, a pé ou de metrô, gastando pouco. Este roteiro foca exatamente nessa travessia: os bairros que preservam a Coreia pré-industrial e os que a reinventaram como potência cultural e tecnológica.

Os bairros que guardam a Seul antiga

“Dá pra sentir a Coreia de antes da industrialização sem sair da capital?” Dá, e os dois endereços abaixo são o motivo.

Bukchon Hanok Village

Bukchon fica entre os palácios Gyeongbokgung e Changdeokgung, numa colina onde cerca de 900 casas hanok ainda são habitadas por famílias reais, não uma reconstrução para turistas. É esse detalhe que muda o comportamento esperado de quem visita: desde 2024 a prefeitura de Seul restringe a visita turística à faixa das 10h às 17h, e quem circular pelas ruas residenciais fora desse horário pode ser multado em cerca de 100 mil wons (por volta de R$ 380 em julho de 2026, cotação que varia). A ideia não é policiar o turista por perseguição, é literalmente permitir que os moradores durmam sem flash de celular na janela às 22h.

Casas tradicionais hanok na Bukchon Hanok Village em Seul
Bukchon Hanok Village, bairro residencial com cerca de 900 casas tradicionais no coração de Seul. | Foto: Saksham Vikram / Pexels

Grupos maiores também têm limite: procure manter no máximo dez pessoas por grupo e evite parar por muito tempo na mesma viela para fotos, já que as ruas são estreitas e servem de passagem para quem mora ali. O Centro de Informações de Bukchon funciona das 9h às 18h, fechado aos domingos, e tem atendimento em inglês, chinês e japonês — vale passar por lá antes de entrar nas ruas mais residenciais para pegar um mapa dos pontos que podem ser fotografados sem problema.

Insadong

A dez minutos a pé de Bukchon, Insadong é o bairro onde a tradição virou comércio, não moradia. A rua principal (Insadong-gil) concentra lojas de antiguidades, papel hanji, cerâmica e casas de chá tradicionais instaladas em construções de décadas passadas. Aos finais de semana a rua fecha para carros e vira um corredor só de pedestres, com vendedores de doces coreanos como yeot e artesãos fazendo demonstrações ao vivo.

É também o bairro mais fácil para comprar um souvenir que não seja genérico: papelaria feita à mão, selos personalizados (dojang) e chás de ervas vendidos a granel. Ao contrário de Myeongdong, em Insadong o regateio moderado é aceito em boa parte das lojas de artesanato, principalmente fora dos horários de pico.

Os bairros que viraram vitrine do futuro

“E do outro lado, onde fica a Coreia que aparece nos vídeos de tecnologia?” A resposta muda de bairro — e de escala.

Gangnam

Gangnam, ao sul do rio Han, é o distrito que a canção de PSY tornou conhecido fora da Coreia, mas o bairro real vai muito além do refrão. É ali que ficam sedes de empresas de tecnologia, clínicas de estética de ponta, o centro de convenções COEX e uma das concentrações mais altas de agências de entretenimento do país. A Gangnam Station, cruzamento comercial mais movimentado da região, tem lojas de grife, restaurantes 24 horas e uma vida noturna que só desacelera de madrugada.

Estatua inspirada em Gangnam Style no bairro de Gangnam em Seul
Estátua em homenagem a “Gangnam Style” no distrito que se tornou símbolo da Coreia contemporânea. | Foto: Elina Volkova / Pexels

Vale caminhar até o templo budista Bongeunsa, encravado entre torres corporativas — um dos contrastes mais diretos de toda a cidade, já que o telhado do templo e os arranha-céus do COEX aparecem na mesma foto sem precisar de zoom. À noite, a região de Apgujeong Rodeo Street mostra a versão mais cara de Gangnam: lojas de grife coreanas e internacionais lado a lado com clínicas de cirurgia plástica, um dos motores econômicos do bairro.

Dongdaemun Design Plaza (DDP)

Projetado pela arquiteta Zaha Hadid e inaugurado em 2014, o DDP é um prédio sem uma única linha reta visível — uma estrutura de metal ondulada que parece ter pousado ali. Fica sobre o antigo estádio de beisebol de Dongdaemun, e durante a construção foram encontrados vestígios da muralha original de Seul, hoje expostos em um parque arqueológico dentro do próprio complexo.

A entrada nas áreas externas e no parque é gratuita; o acesso às exposições internas do Design Museum costuma custar entre 8 mil e 15 mil wons (R$ 30 a R$ 57 em julho de 2026), dependendo da mostra em cartaz — confirme sempre no site oficial antes de ir, porque a programação muda com frequência. O prédio abre diariamente, com horários que variam por área entre 10h e 20h; a estação de metrô Dongdaemun History and Culture Park (linhas 2, 4 e 5), saída 1, desemboca direto na praça.

Fachada curva e futurista do Dongdaemun Design Plaza em Seul
Fachada ondulada do Dongdaemun Design Plaza, projeto de Zaha Hadid erguido sobre ruínas da muralha antiga de Seul. | Foto: Markus Winkler / Pexels

À noite, a fachada recebe projeções de luz e vira ponto de encontro de quem sai dos mercados de moda ao redor — Dongdaemun também é um dos maiores polos atacadistas de roupa da Ásia, com lojas que funcionam de madrugada.

O contraste lado a lado: como ver os dois mundos no mesmo dia

“Dá pra encaixar tradição e modernidade num único roteiro sem correria?” Dá, com a ordem certa. Comece cedo em Bukchon, antes das 10h ainda é possível caminhar pela parte mais alta da colina com menos gente; desça para Insadong no fim da manhã, quando as lojas já abriram; almoce por ali. À tarde, pegue a Linha 3 do metrô até Apgujeong ou Gangnam — o trajeto de Anguk (estação mais próxima de Bukchon/Insadong) até Gangnam Station leva cerca de 35 a 40 minutos, com uma baldeação.

Esse deslocamento resume fisicamente o argumento do artigo: em meia hora de trem, você sai de um bairro com regras de silêncio para não incomodar vizinhos e chega a um cruzamento com telas de LED gigantes e prédios de vidro de 30 andares. Se sobrar tempo, o DDP fica na Linha 2, o que permite fechar o dia ali à noite, quando a fachada iluminada compensa qualquer cansaço de pernas.

K-pop e cultura pop como parte da modernidade coreana

A cultura pop coreana não é um apêndice do turismo em Seul — é parte da engenharia urbana da cidade. Gangnam concentra sedes de gravadoras e agências de entretenimento, e é comum ver fãs esperando na porta de estúdios de gravação ou prédios de agências à espera de um vislumbre de algum artista. O K-Star Road, uma calçada com estátuas de ursinhos decorados por grupos de K-pop, fica justamente na região de Apgujeong/Gangnam.

Museus e experiências interativas de K-pop e K-drama, como estúdios de realidade aumentada com hologramas de idols, costumam ficar concentrados em Gangnam e Hongdae — não espere encontrar esse tipo de atração em Bukchon ou Insadong, que preservam propositalmente a estética anterior. Essa divisão geográfica entre “onde a Coreia guarda sua história” e “onde a Coreia exporta sua cultura pop” é, na prática, o mapa mental mais útil para organizar qualquer roteiro na cidade.

Para quem quer se aprofundar no roteiro completo de Seul, incluindo palácios, K-ETA e comida de rua, vale conferir o guia geral de Seul aqui no Voyage Voyage, que cobre a cidade de ponta a ponta.

Logística prática: como chegar, deslocar-se e quanto gastar

Do Brasil não há voo direto para Seul; a conexão mais comum passa por Istambul, Dubai, Doha ou Los Angeles, com duração total entre 26 e 34 horas dependendo da escala. O Aeroporto Internacional de Incheon liga ao centro de Seul pelo AREX (trem expresso, cerca de 45 a 60 minutos até a Estação de Seul) ou por ônibus executivo até os principais hotéis.

Dentro da cidade, o metrô é a forma mais previsível de circular entre os bairros deste roteiro: compre o cartão T-money em qualquer loja de conveniência perto das estações e recarregue conforme usar — cada viagem de metrô costuma custar entre 1.400 e 1.550 wons (cerca de R$ 5 a R$ 6 em julho de 2026). Para quem vem do Brasil, confirme sempre a necessidade de K-ETA (autorização eletrônica de viagem) nas regras oficiais atualizadas antes de comprar a passagem, já que a exigência e a validade mudam periodicamente. Mais detalhes sobre os bairros tradicionais estão no site oficial de turismo, o Visit Seoul.

Perguntas frequentes

Pode tirar foto dentro das casas em Bukchon Hanok Village?

Não. As casas são residências particulares habitadas por famílias reais, e fotografar o interior — mesmo com a porta aberta — é considerado invasivo pelos moradores e desencorajado pela prefeitura de Seul.

Qual a diferença entre visitar Insadong e Bukchon?

Bukchon é bairro residencial, com restrição de horário e comportamento por respeito a quem mora ali. Insadong é comercial, voltado para lojas de artesanato, chá e antiguidades, sem essas mesmas restrições de circulação.

Gangnam vale a visita para quem não gosta de compras de luxo?

Vale, especialmente pelo contraste arquitetônico entre o templo Bongeunsa e as torres corporativas ao redor, além da vida noturna e dos restaurantes, que não exigem gasto alto para serem aproveitados.

O Dongdaemun Design Plaza tem entrada paga?

As áreas externas, incluindo o parque com ruínas da muralha antiga, são gratuitas. Só as exposições internas do Design Museum cobram ingresso, com valor que varia por mostra.

Dá para ver Bukchon, Insadong e Gangnam no mesmo dia?

Dá, com bom planejamento de horário: manhã em Bukchon e Insadong, tarde e noite em Gangnam ou no DDP, usando o metrô como conexão entre as duas regiões.

Conclusão

O que separa Bukchon de Gangnam não é apenas distância no mapa, é uma escolha que Seul fez de preservar um lado da sua história enquanto constrói outro em paralelo, sem misturar os dois. Caminhar por essa linha — dos telhados curvos aos vidros espelhados — é a forma mais direta de entender como a cidade chegou a ser o que é hoje. Explore os outros guias de destinos aqui no Voyage Voyage.