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Istambul entre dois continentes: mesquitas, bazares e a travessia do Bósforo

Istambul não cabe só na Hagia Sophia e na Mesquita Azul. A cidade que respira dos dois lados do Bósforo esconde mesquitas menos fotografadas, mercados que abrem antes do sol nascer e uma travessia de balsa que, em 25 minutos, leva você de um continente ao outro sem que o passaporte precise sair da mochila. Chegar até esses cantos é simples: bonde, metrô e balsa cobrem quase tudo, e o orçamento por dia gira em torno de moderado, considerando refeições de rua e passeios de barco. Fique com a gente até o fim para entender por que essa travessia entre a Europa e a Ásia é, para muita gente, o momento mais lembrado da viagem.

Mesquitas além das mais famosas

“Só dá para ver a Mesquita Azul e a Hagia Sophia?” Não. Istambul tem mais de 3 mil mesquitas, e algumas das mais interessantes ficam a poucos minutos a pé das rotas mais óbvias, quase sempre vazias de turistas em comparação com os dois monumentos que aparecem em toda foto de perfil.

Mesquita de Suleymaniye em Istambul vista de longe
Mesquita de Suleymaniye, projetada pelo arquiteto Mimar Sinan no século 16. | Foto: Burak Başgöze / Pexels

Mesquita de Suleymaniye

Encomendada pelo sultão Suleiman, o Magnífico, e erguida no bairro que leva o mesmo nome, a Suleymaniye é obra do arquiteto Mimar Sinan, considerado o grande nome da arquitetura otomana. A entrada é gratuita, como na maioria das mesquitas em funcionamento na cidade, e o pátio externo oferece uma das vistas mais completas do Chifre de Ouro, o braço de mar que corta a parte europeia da cidade. Os horários de visita seguem as pausas para as cinco orações diárias, então evite chegar bem no horário do azan (chamado à oração) se quiser entrar sem pressa. Tire os sapatos na entrada, leve um lenço para cobrir a cabeça se for mulher, e reserve uns 40 minutos para caminhar pelo cemitério anexo, onde estão os túmulos de Suleiman e da esposa, Hurrem Sultan.

Mesquita Nova (Yeni Cami)

Fica literalmente encostada no Mercado de Especiarias, em Eminönü, e por isso é um dos raros pontos da cidade em que fé e comércio dividem a mesma calçada. Levou mais de 60 anos para ficar pronta, atravessando o reinado de várias sultanas-mães, e por isso carrega o apelido informal de “mesquita das mulheres do harém”. A cúpula central e os pátios de mármore branco contrastam com a bagunça colorida do mercado ao lado — um dos contrastes mais interessantes da cidade para quem gosta de fotografar.

Mesquita de Rüstem Pasha

Pequena, discreta e escondida em cima de um punhado de lojas no bairro de Eminönü, essa mesquita costuma passar batida por quem caminha rápido demais. Vale o esforço de subir a escada estreita: o interior é revestido por azulejos İznik originais do século 16, com os mesmos padrões florais que decoram partes do Palácio de Topkapi, só que aqui sem fila nenhuma.

Mesquita de Eyüp Sultan

Fica no extremo do Chifre de Ouro, fora do circuito a pé do centro histórico, e por isso é procurada mais por peregrinos turcos do que por turistas estrangeiros. O local guarda o túmulo de Eyüp Ansari, companheiro do profeta Maomé, o que torna o complexo um dos pontos de peregrinação mais importantes do Islã sunita fora da Arábia Saudita. Para chegar, pegue o teleférico (Eyüp-Piyer Loti) que sobe até o café Piyer Loti, no alto da colina, de onde a vista cobre toda a extensão do Chifre de Ouro até os prédios modernos do lado europeu mais distante.

Mercados e bazares: onde Istambul negocia

“Além do Grand Bazaar, tem mais alguma coisa?” Tem, e para muitos viajantes os mercados menores acabam sendo o ponto alto da viagem, exatamente por fugirem do roteiro batido.

Corredor movimentado do Grand Bazaar em Istambul com bandeiras turcas
Um dos corredores cobertos do Grand Bazaar, com milhares de lojas distribuídas por 61 ruas. | Foto: Tolga deniz Aran / Pexels

Grand Bazaar sem cair nas armadilhas de turista

O Grand Bazaar (Kapalıçarşı) tem cerca de 4 mil lojas espalhadas por corredores cobertos, e a regra número um é: o primeiro preço dito nunca é o preço final. Negociar é esperado e até visto como parte da experiência — comece oferecendo bem menos do que o pedido inicial e vá subindo aos poucos. As entradas mais tranquilas, com menos empurra-empurra, costumam ser as próximas à Mesquita de Beyazıt, enquanto os portões voltados para o Sirkeci concentram o maior fluxo de grupos turísticos.

Mısır Çarşısı, o Mercado de Especiarias

Ao lado da Mesquita Nova, o Mercado Egípcio é menor, mais fácil de percorrer em uma hora e concentra pilhas de especiarias, frutas secas, chás e o clássico lokum (o doce turco às vezes chamado de “delícia turca” em português). O nome remete ao comércio de especiarias vindas do Egito no período otomano, quando esse era um dos pontos de entrada de produtos do Oriente Médio para a Europa.

Especiarias coloridas expostas no Mercado Egípcio de Istambul
Barracas de especiarias no Mısır Çarşısı, ao lado da Mesquita Nova, em Eminönü. | Foto: Enes Bayraktar / Pexels

Mercados de bairro no lado asiático

Em Kadıköy, do lado asiático, o Tuesday Market (Salı Pazarı) — como o nome sugere, funciona às terças-feiras — reúne produtores locais vendendo queijos, azeitonas e verduras a preços bem abaixo dos praticados na parte turística europeia. É o retrato mais próximo do que é fazer compras como um morador de Istambul, sem cenografia para turistas.

A travessia do Bósforo: dois continentes em um dia

“Dá para atravessar de continente sem contratar passeio turístico?” Dá, e sai mais barato do que parece. As balsas urbanas da empresa pública Şehir Hatları fazem esse trajeto todos os dias, o ano inteiro, como parte do transporte público comum da cidade — o mesmo que moradores usam para ir trabalhar.

Balsa cruzando o Bósforo em Istambul entre a Europa e a Ásia
Balsa da Şehir Hatları cruzando o Bósforo, ligando os lados europeu e asiático da cidade. | Foto: betül aymergen / Pexels

Qual balsa pegar

A rota mais curta liga Eminönü, no lado europeu, a Üsküdar, no lado asiático, em cerca de 20 a 25 minutos de travessia, com tarifa em torno de 53 liras turcas em 2026 (confira valores atualizados no site da Şehir Hatları antes de viajar, já que reajustes são frequentes). Outra opção é o trajeto até Kadıköy, bairro mais jovem e cheio de bares e livrarias, com tarifa próxima de 59 liras e uma vista mais longa do perfil da cidade durante o percurso. O pagamento é feito com o cartão Istanbulkart, o mesmo usado em metrô e ônibus, disponível em máquinas nos terminais.

O que ver durante a travessia

Do convés, dá para avistar ao mesmo tempo os minaretes da Mesquita Azul, a Torre de Gálata do lado europeu e as colinas residenciais de Üsküdar do lado asiático. Gaivotas costumam acompanhar o barco por boa parte do trajeto, e é comum ver vendedores oferecendo simit — o pão em formato de anel coberto de gergelim — logo na entrada do terminal, uma cena tão típica quanto qualquer mesquita do roteiro.

Vale a pena o cruzeiro turístico pelo Bósforo?

Existe também o passeio turístico de longa duração, que sobe o estreito até perto do Mar Negro e volta, geralmente com guia e parada para fotos nas fortalezas otomanas às margens da água. É uma experiência diferente da balsa urbana: mais cara, mais longa (entre 1h30 e 2h) e voltada para quem quer ver as mansões de veraneio (yalıs) na beira do Bósforo com calma. Para quem só quer sentir a travessia entre dois continentes, a balsa de linha resolve — e custa uma fração do preço.

Onde comer nesse roteiro

“Depois de andar tanto, onde parar para comer sem cair em armadilha de turista?” Ao redor da Suleymaniye, procure pelas casas de kuru fasulye (feijão branco cozido, servido com arroz e picles), prato simples que os próprios moradores do bairro comem no almoço, geralmente por um valor bem menor do que restaurantes voltados para turistas na região de Sultanahmet.

Perto do Mercado de Especiarias, os balcões de balık ekmek (sanduíche de peixe grelhado, tradicionalmente vendido em barcos ancorados no Corno de Ouro) continuam sendo uma opção rápida e barata para comer em pé, olhando o movimento do cais. Já do lado de Kadıköy, depois da travessia de balsa, vale reservar tempo para caminhar pela Rua Moda Caddesi e experimentar meze variados nos botecos de bairro, com preços mais em conta do que os restaurantes badalados de Beyoğlu.

Um detalhe que passa despercebido: boa parte dos vendedores de rua nesses bairros mais locais não fala inglês fluente, então leve o nome do prato escrito ou uma foto no celular para facilitar o pedido.

Dicas práticas

Vale a pena reservar meio dia inteiro só para o roteiro de mesquitas menores e mercados, sem tentar encaixar isso no mesmo dia da Hagia Sophia — para o roteiro completo de Istambul, veja nosso guia geral, que cobre os pontos mais conhecidos, vistos e bairros para se hospedar.

A moeda local é a lira turca (TRY), e cartões de crédito internacionais funcionam na maior parte dos mercados formais, mas leve dinheiro vivo para negociar no Grand Bazaar e para comprar nas barracas de rua, onde nem todo vendedor aceita cartão. Chip de celular local ou e-SIM ajuda bastante para usar mapas durante a travessia entre os bairros, já que o wi-fi público é instável nos terminais de balsa.

Um erro comum é tentar visitar a Suleymaniye e a Mesquita Nova durante a oração das sextas-feiras ao meio-dia, quando o movimento de fiéis é maior e partes do interior ficam fechadas para visitantes. Se o objetivo é fotografar o interior com calma, prefira o meio da manhã em dias de semana.

Brasileiros não precisam de visto para estadias turísticas de até 90 dias na Turquia, mas as regras mudam com frequência — confirme sempre nas regras oficiais de visto antes de comprar a passagem.

Perguntas frequentes

Preciso pagar para entrar nas mesquitas menores de Istambul?

Não. A entrada é gratuita na Suleymaniye, na Mesquita Nova e na maioria das mesquitas em funcionamento na cidade. É esperado deixar uma doação simbólica na caixa perto da porta, mas não é obrigatório.

Qual a diferença entre o Grand Bazaar e o Mercado de Especiarias?

O Grand Bazaar é maior, com milhares de lojas de tapetes, joias, cerâmicas e roupas, enquanto o Mercado de Especiarias (Mısır Çarşısı) é bem menor e focado em temperos, chás, frutas secas e doces, sendo mais rápido de percorrer.

Quanto custa a balsa entre os lados europeu e asiático de Istambul?

Em 2026, a tarifa da balsa urbana entre Eminönü e Üsküdar gira em torno de 53 liras turcas, e entre Eminönü e Kadıköy, cerca de 59 liras, pagas com o cartão Istanbulkart. Confira valores atualizados antes da viagem, já que reajustes são comuns.

Vale mais a pena a balsa de linha ou o cruzeiro turístico pelo Bósforo?

Depende do tempo disponível. A balsa de linha é rápida, barata e já entrega a sensação de cruzar de continente. O cruzeiro turístico é mais longo, mais caro e melhor para quem quer ver as mansões históricas às margens da água com calma.

Dá para visitar as mesquitas menores e os mercados no mesmo dia?

Dá, principalmente se o roteiro começar em Eminönü, onde a Mesquita Nova e o Mercado de Especiarias ficam lado a lado, seguindo depois a pé até a Suleymaniye e encerrando com a travessia de balsa até Üsküdar ou Kadıköy no fim da tarde.

Conclusão

Istambul entre dois continentes é menos sobre marcar pontos turísticos no mapa e mais sobre entender como fé, comércio e geografia se cruzam na mesma tarde: uma mesquita quase vazia, um mercado de especiarias barulhento e uma balsa que troca de continente em meia hora. Explore os outros guias de destinos aqui no Voyage Voyage.